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Sem pedir licença: Duvida peita o impossível e marca a história da música independente de Caruaru com BaianaSystem

Foto do escritor: Nação Pirata
Nação Pirata
23 de set.
8 min de leitura

Por Nação Pirata e Duvida 

(Construído colaborativamente a partir de depoimentos e reflexões concedidos por Duvida em entrevista exclusiva à Nação Pirata)


Foto: Juana Carvalho @juanacarv
Foto: Juana Carvalho @juanacarv

Quem acompanha as movimentações do BaianaSystem sabe muito bem que a máscara que virou símbolo do coletivo nunca serviu como um disfarce para esconder identidades. Pelo contrário: ela funciona como uma lente de aumento, projetando no palco e no público o que há de mais urgente e verdadeiro no chão em que o grupo pisa.


Durante a passagem da turnê pelo Pátio de Eventos Luiz Gonzaga, em Caruaru, a praça central do Agreste virou palco de mais uma dessas catarses. Mas a história que ficou marcada na memória da pirataria que lotava a grade não estava prevista no roteiro oficial do evento. Foi conquistada à força de audácia e da mais pura atitude de ocupação espacial por uma artista da própria terra.


Se você viu a jovem cantora caruaruense subir ao palco e incendiar os microfones junto com Russo Passapusso, a guitarra baiana de Beto Barreto e toda a banda, precisa entender que aquele momento não foi um gesto simpático de sorte casual. Foi o choque frontal de dois universos que compartilham o mesmo DNA de subversão.


O nome por trás daquela voz rasgada é Duvida. E o seu caminho até aquele microfone diz muito sobre a essência do que significa produzir arte independente no interior do Brasil e sobre como o BaianaSystem sempre esteve, desde a sua fundação, visceralmente atrelado à estética e à fúria do rock and roll.


A Virada de Chave: Da descoberta no Fervo ao salto com muita coragem

Duvida se enxerga como uma garota interiorana alimentada pela visão e pela inquietude de uma mulher de metrópole. Artista multidisciplinar, ela utiliza as artes visuais e o design como meio de sobrevivência, enquanto dedica a alma ao seu verdadeiro sonho: cantar e fazer música.


Sua relação com o som nasceu no cotidiano do Agreste: nas manhãs em que a mãe ligava o som alto para despertá-la e no fascínio infantil por clipes de Avril Lavigne, Madonna, Michael Jackson e Guns N' Roses salvos no menu das lan houses de Caruaru. Como acontece com muitos jovens criados fora dos grandes centros urbanos, a cultura pop e o rock internacional chegaram primeiro. O orgulho e a entrega ao repertório brasileiro e nordestino foram construídos com o tempo, superando a ideia de que a grande arte só é produzida no exterior. "Graças a isso, essa minha abertura pro que é nosso veio tarde. E hoje o que me influencia é o mix das duas coisas: o que é nosso e o que é de fora", analisa Duvida.

 

Com o BaianaSystem, a virada de chave aconteceu ao vivo no festival Fervo, no Recife, em 2022. Ao ver o coletivo baiano no palco, a ficha caiu de forma avassaladora para a cantora: aquela banda que usava percussão afro-baiana, sound system e elementos populares trazia no peito uma postura, um ataque sonoro e um peso que superavam a maioria das bandas de metal que ela costumava escutar.


Por ser uma artista multidisciplinar que utiliza as artes visuais e o design como meio de sobrevivência enquanto lapida seu trabalho musical, Duvida enxerga a cena de Caruaru com carinho e respeito. Embora apoie e reconheça o corre dos colegas locais, ela sente que ainda busca seu pleno espaço de pertencimento, especialmente diante da escassez de representatividade feminina nos palcos e nas plateias da música alternativa: "É difícil estar 100% presente por não me ver plenamente representada ou pertencente a ela [...]. Apesar disso, reconheço a cena, apoio e a respeito". 


Por isso, quando soube da presença do BaianaSystem na cidade, ela decidiu que não esperaria por convites ou burocracias. Durante três dias em claro, tomada por uma ansiedade criativa, desenhou e estampou uma camisa exclusiva fundindo a icônica máscara do BaianaSystem com a tipografia pontiaguda do deathcore, além de carregar um cartaz direto: "Russo, posso cantar Sulamericano com você? Faço distorção vocal".


No dia do show, chegou ao Pátio de Eventos por volta das 10h da manhã. Quando viu Russo Passapusso descer à pista para conversar com os técnicos de som, aproximou-se com calma e mandou a real: "Russo, tudo bem? Sou Duvida, uma artista aqui da cidade. E queria cantar Sulamericano com você, faço distorção vocal, estilo metal". Diante do silêncio pensativo do vocalista, ela arrematou com a convicção estética que trazia do show do Recife: "Desde que vi Baiana pela primeira vez, a ficha caiu que Baiana era muito mais rock que muita banda de metal que escuto".


Russo respondeu que Sulamericano não funcionaria naquele formato, mas prometeu pensar. Duvida manteve a calma, disse que estaria na grade para o que desse e viesse, e voltou a esperar. Pouco tempo depois, a própria equipe técnica desceu para chamá-la a pedido do vocalista. O plano traçado no quarto tinha furado o bloqueio do protocolo.


A Antropofagia Baiana: Por que o BaianaSystem flerta com o Rock n’ Roll

A surpresa de parte do público ao ver uma vocalista de screams e guturais dividindo o palco com o BaianaSystem revela o quanto a nossa cena ainda se prende a divisões puristas e ultrapassadas. Para a pirataria mais atenta, a presença do peso do rock dentro do som do coletivo baiano nunca foi um adendo; é fundacional.


Desde a concepção idealizada por Beto Barreto, o BaianaSystem nasce da reinvenção da guitarra baiana, um instrumento criado por Dodô e Osmar no Carnaval de Salvador que já trazia a eletricidade, a distorção e o ataque em sua própria gênese. O próprio Roberto Barreto já destacou em diversas entrevistas como a formação do grupo foi ganhando elementos de rock ao longo dos anos, transformando a apresentação ao vivo em uma experiência onde a postura, o volume e a entrega transitam pela agressividade do estilo.


Além disso, Russo Passapusso sempre fez questão de saudar a escola de rock e hardcore da Bahia e do Brasil. O Baiana bebe abertamente na fonte do Planet Hemp, de BNegão, do Bad Brains, do Sepultura, da Nação Zumbi e do Punk. Como reflete Duvida, a convergência entre os dois mundos é total: a atitude de palco, as rodas de moshpit que se formam na plateia e a percussão cortante da bacurinha cumprem no Baiana o papel do peso no metal. "Adicionar um vocal a mais, agora mais 'berrado', só dá ainda mais corpo ao som pesado que o BaianaSystem já tem. Tudo se complementa", pontua a artista. 


Duvida subiu ao palco durante a transição da arrebatadora "Reza Forte", faixa que abre o álbum Oxeaxeexu (2021) e apresenta um manifesto de fé, ancestralidade e resistência espiritual, para o peso certeiro de "Sem Crise", uma das faixas mais emblemáticas do Dubstereo, coletivo soteropolitano fundado no formato sound system no qual Russo Passapusso atuava como vocalista antes e durante o fortalecimento do BaianaSystem. Lançado em agosto de 2013 no primeiro disco homônimo do grupo, gravado ao vivo em 48 horas em Salvador com a "adubação" sonora analógica de Buguinha Dub e mixagem de André T., o Dubstereo é parte fundamental do alicerce da pesquisa de Russo.


Ao resgatar essa pedrada do Dubstereo dentro do ecossistema do BaianaSystem, a banda criou a brecha perfeita para a fúria e o controle da técnica vocal de Duvida. Quando a caruaruense soltou a voz, aplicando um trabalho rigoroso de controle de ar, pressão e memória muscular em que se aprofunda há anos, ficou claro que ela não estava impondo nada alheio ao som do grupo. Ela estava somando uma camada a mais de distorção ao peso da casa. "Baiana é um grupo excelente. Eu tinha que ser excelente também naquele momento, pra honrar a oportunidade que tive", revela. 


Os arranjos graves e marcantes da faixa, somados à pressão percussiva da bacurinha e ao gutural rasgado no microfone, entregaram um casamento estético impecável entre a cultura dos sistemas de som e a agressividade do metal moderno. Esse encontro entre o vocal extremo nordestino e o peso afro-baiano provou que a música pesada no Brasil não precisa macaquear o modelo europeu ou norte-americano para ser brutal; ela se torna infinitamente mais forte quando finca os pés na própria terra.


A tradição, o Novo e o respiro feminino no agreste: O peso da palavra "Finalmente!"

Ao colocar a proposta de valorizar a cultura local em primeiro lugar, o BaianaSystem deixou evidente o respeito sagrado pelo chão onde se apresenta. Isso ficou nítido logo na abertura do show, com a participação histórica da lendária Banda de Pífanos Zé do Estado, patrimônio vivo da cultura caruaruense. Ao abrir espaço para os mestres do pífano, o coletivo baiano prestou reverência à raiz secular do Agreste. E foi justamente nesse ambiente de exaltação territorial que a ocupação de Duvida ganhou um sentido ainda mais completo: se a Banda de Pífanos representa a base viva da tradição, a presença de Duvida no microfone escancarou o futuro da cena independente e alternativa da cidade. O tradicional e o novo se abraçaram no mesmo palco, provando que Caruaru é múltipla e não se resume a um único nicho cultural.


Subir naquele palco diante de uma multidão no Pátio de Eventos teve um significado político profundo para a cena local. Caruaru é um polo cultural gigantesco, mas que muitas vezes tem a sua diversidade sufocada pelas gestões públicas e pela mercantilização da cultura, que centraliza atenções apenas nos formatos comerciais tradicionais.


Para além da questão regional, a presença de Duvida escancara a urgência de encarar a desigualdade de gênero dentro da música alternativa. Na visão da artista, a cena do rock e do metal ainda se arrasta como um ambiente predominantemente masculino, onde poucas mulheres ocupam os palcos ou a linha de frente.


A visão de uma artista independente da cidade assumindo o comando do microfone ao lado de uma das maiores bandas do país provocou um impacto imediato nas redes e nos bastidores locais. Dezenas de mensagens de jovens artistas e mulheres de Caruaru chegaram até Duvida após o show, com relatos de pessoas que se sentiram, pela primeira vez em muito tempo, representadas e encorajadas a ocupar espaços que também são seus por direito. "Eu naquele palco, ao lado de uma banda gigante nacionalmente, foi um choque e um recado de: também existimos, somos fodas, devemos estar ali sim!", sintetiza. 


Quando a performance acabou e os amplificadores silenciaram, a única palavra que restou na garganta de Duvida foi: "Finalmente!".

Aquele brado no microfone resgatou a menina que dublava músicas no quarto, a jovem das lan houses e a artista que recusou a invisibilidade do underground. Foi o alívio de quem provou a si mesma que possui porte, técnica e estofo para encarar plateias de qualquer tamanho.


Atualmente, sem pressa e trabalhando no seu próprio ritmo para priorizar a qualidade técnica do seu som, Duvida recolhe referências e articula parcerias para a criação do seu primeiro projeto autoral. "Quero construir uma identidade pra minha sonoridade. Exatamente como BaianaSystem fez, só que com outras influências", afirma. A proposta é erguer um ecossistema sonoro autêntico, costurando a força das suas raízes nordestinas com o impacto do metal moderno. 


A passagem do BaianaSystem por Caruaru reforçou a mensagem de que a nossa cultura precisa vir em primeiro lugar, seja ela a tradição centenária do pífano ou a força cortante da nova música independente. E, para a pirataria que vive e respira essa música, a lição de Duvida fica como um farol aceso: a cultura independente do interior não é menor, não deve pedir licença e está pronta para tomar o lugar que é seu por direito.


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